O HOMEM CÓSMICO: A ‘TESTEMUNHA'


“... Ele é encarnado, mas em vista de sua infinitude e dos estágios presumivelmente diferentes de desenvolvimento cósmico de que não temos conhecimento, o quanto de Deus – caso este não seja um argumento humano demais – se transformou? Neste caso, é de se esperar que entremos em contato com um Deus ainda não transformado , quando nossa consciência começar a estender-se até a esfera do inconsciente. De qualquer modo, há uma clara expectativa desta natureza, expressa no “Evangelium Aeternum” do Apocalipse, que contém a mensagem: Temei a Deus. (Apoc. 14:6-7).
..... Embora a encarnação divina seja um evento cósmico e absoluto, ela só se manifesta empiricamente naqueles indivíduos relativamente pouco numerosos que são capazes de uma consciência suficiente para tomar decisões éticas, isto é, para decidir pelo Bem. Assim, Deus só pode ser chamado bom na medida em que é capaz de manifestar a sua bondade nos indivíduos. Sua qualidade moral depende dos indivíduos. É por isto que ele se encarna. A individuação e a existência individual são indispensáveis para a transformação do Deus Criador”. (EDINGER, 1987, p.91).

Como podemos perceber, a encarnação de Deus na alma humana é um processo magnificamente duplo. Ao mesmo tempo em que o homem “encarna” a numinosidade do transpessoal e alcança a estatura de Homem Divinizado ou Designado; Deus, ao se encarnar no homem, transforma sua própria natureza. Nestes termos, a encarnação de Deus é um processo tão colossal que uma psique embrionária jamais conseguiria empreender este projeto sem diluir-se ou precipitar-se na loucura ou na ira de Deus. Portanto, a advertência de Jung, em sua carta a Elined kotschnig acima citada, de que “ é de se esperar que entremos em contato com um Deus ainda não transformado, quando nossa consciência começar a estender-se até a esfera do inconsciente ”, deve necessariamente ser considerada por todos aqueles que pretendem iniciar um processo de individuação consciente .

Nesta advertência existe a idéia implícita de que quando iniciamos o nosso processo de individuação a nossa consciência individual ainda é bastante incipiente e vinculada sobremaneira ao caráter elementar. É importante lembrarmos que o caráter elementar é o Pleroma indiferenciado em nossa alma. Assim, entrar em contato com o inconsciente é, a princípio, acessar esta natureza primeva, indiferenciada, portanto, nestas condições, os aspectos de Deus que podem ser assimilados e encarnados pela alma humana são, ainda, obscuros. Em outras palavras, a alma humana que serve de “espelho” para Deus se refletir ainda é primária e indiferenciada, portanto, a Sua manifestação na psique individual assume também esta configuração elementar e obscura.

Por esta razão, individuar-se, aprofundar-se nos mistérios da psique e conectar-se com o transpessoal é sempre um empreendimento arriscado que exige do neófito uma estruturação ímpar do complexo do eu, uma vez que se o processo de individuação (a individualidade sobrevivendo ao grande mergulho nas águas primordiais do inconsciente) não for conduzido adequadamente o encontro com um Deus primevo, ainda não transformado, pode acarretar uma série de equívocos e distúrbios psíquicos duradouros.

Queremos lembrar que expansões momentâneas de consciência não são suficientes para transformar alquimicamente o ego para que este seja o portador da luz, o Santo Graal, o receptáculo capaz de suportar as diferentes realidades do Espírito de Deus. Nem mesmo anos de meditação, yoga e outras práticas são suficientes para desenvolver a consciência necessária para suportar a numinosidade do inconsciente. A consciência requerida para este empreendimento é essencialmente gestada pela função transcendente, ou seja, é “a substância psíquica produzida pela experiência dos opostos, vivenciada não às cegas, mas num vívido estado de alerta”. (EDINGER, 1987, p.31).

Sem sermos portador de uma consciência temperada alquimicamente pela experiência dos opostos, nos tornamos tão somente vítimas para o holocausto Divino. Faremos conexão com os aspectos obscuros de Deus, semelhantes àqueles atributos do Deus do Velho Testamento que encontrava-se sempre irado, castigando seus súditos, exigindo expiações e sacrifícios. Sem discernimento conferido pela diferenciação, não saberíamos discernir a individualidade do arquétipo e, portanto, seríamos diluídos por sua numinosidade. Sem consciência individualizada, viveríamos basicamente no reino das sombras e do adormecimento e poderíamos, em contato com o arquétipo espelhar apenas a sombra do próprio Deus. Somente uma psique devidamente individuada e portadora da luz tem o poder de espelhar e encarnar em si o lado luminoso de Deus e, portanto, ser partícipe de Sua transformação.

É importante ficar claro que todas as vezes que realizamos práticas introspectivas, especialmente aquelas que provocam uma acentuada retração da libido à camadas profundas do inconsciente como, p.ex, yoga e meditação, vivificamos, em diferentes níveis, os conteúdos arquetípicos. É vital lembrarmos que o yoga e a meditação provocam um “estado de represamento ou acumulação da libido, desviando sistematicamente a atenção (da libido) dos objetos e dos estados psíquicos, dos opostos. A dissociação da percepção sensível e eliminação dos conteúdos conscientes levam forçosamente a um rebaixamento da consciência em geral e vivifica assim os conteúdos do inconsciente, isto é, as imagens primitivas que, devido à sua universalidade e à sua indiscutível antigüidade, têm caráter cósmico e sobre humano”. (JUNG, 1991, p.199). Isto significa que quando estamos nos exercitando em determinadas práticas “espirituais” estabelecemos conexão com aspectos primordiais e elementares.

Uma vez estabelecida a conexão adentramos, geralmente, primeiro no reino das sub-personalidades, dos deuses e dos demônios. Alcançar a tão sonhada morada de Deus é uma façanha para poucos e está relacionada com o homem cósmico. Por falta de maturidade psíquica, individualidade e discernimento, corremos o risco de tomar este reino elementar, mas numinoso, como Deus. Nestas condições, obtemos tão somente um pseudo processo de individuação sujeito a equívocos e perigos. Devemos nos lembrar que a partir do momento em que a retração da libido vivifica os habitantes do inconsciente estes têm o seu poder amplificado e podem abrir os portais para os conteúdos não humanizados da psique humana e virem a possuir a psique individual para o bem ou para o mal, para o equilíbrio ou para a inflação, visto que a alma humana ainda não aprendeu a modular adequadamente os fluxos de energia que provêm da conexão com a esfera arquetípica elementar. Sem dúvida que esta dimensão fornece energia para a transformação da psique e pode nos conferir uma certa diferenciação que nos coloca alguns passos à frente da média das pessoas, no entanto, não nos iludamos, apenas nos conectamos, na melhor das hipóteses, com os deuses luminosos deste reino elementar, o que para a psique embrionária já é considerado a iluminação, em virtude de sua precária luz pessoal.

A grande maioria dos “seres especiais” e até mesmo mestres que conhecemos, infelizmente, situam-se nesta esfera. É possível que não tenham atravessado o “corredor” arquetípico das verdades coletivas de um Deus primevo e que ainda desejem o retorno à beatitude original. A individuação, por outro lado, é inequívoca, ela nos torna portadores da encarnação de um Deus transformado, ela pressupõe um trabalho braçal, um constante confronto com a sombra pessoal e arquetípica. Na verdade, a individuação da alma humana é a conditio sine qua non para que Deus se reflita em seu lado luminoso e conscientizando-se Dele, se transforme, isto é, transforme a Sua própria sombra.

Sobre esta questão da sombra de Deus sendo transformada a partir de Sua encarnação no homem é importante considerarmos alguns aspectos. Como salientamos nos parágrafos precedentes, a retração da libido mediatizada por determinadas práticas espirituais viabiliza uma conexão com a dimensão arquetípica, transpessoal e abre os portais dos reinos elementares e primordiais. Pois bem, devemos nos lembrar que o Pleroma é o ventre de Deus que guarda em si todas as manifestações e isto equivale a dizer que em seu ventre estão todos os seus “humores”, todos os deuses e demônios parciais, as sub-personalidades e a própria sombra arquetípica que escapa completamente à compreensão humana. Neste sentido, é possível que todas as versões que a humanidade esboçou de Deus, incluindo o Deus monoteísta do Cristianismo, sejam atributos da Divindade ou Ser Absoluto e, portanto, não O represente em sua totalidade.

Nesta linha de pensamento e considerando que todos estes aspectos são realidades vivas e autônomas que podem vir a se personificar na alma humana, podemos entender que quando estes “seres” encarnam na psique individual eles são transformados e, portanto, humanizados. Em outras palavras, na medida em que assimilamos conscientemente, na esfera do complexo do eu, “atributos” divinos inerentes ao nível de diferenciação daquele que experencia, ocorre um incremento substancial de consciência em virtude da energia psíquica liberada por ocasião da assimilação destes aspectos de Deus na psique humana. Neste sentido Deus encarnou-se no homem e o transformou; em contrapartida, esta assimilação, por mecanismos que ainda desconhecemos, de alguma forma, transforma Deus. Jung salienta que “podemos até presumir que, assim como o inconsciente nos afeta, o aumento de nossa consciência afeta o inconsciente”. (EDINGER, 1987, p.16). Neste processo, vamos sucessivamente apreendendo, digerindo, assimilando outros atributos da divindade, sempre com novos acréscimos de consciência. Quanto mais sutilizada e ampla vai se tornando a consciência, mais atributos inefáveis de Deus podemos ir assimilando em nossa alma e, desta forma, ir nos transformando em Homem Cósmico e sendo partícipe da transformação de Deus. Parece ser este o processo pelo qual saímos dos reinos elementares de deuses e demônios para ir ao encontro de Deus.

Nesta perspectiva, é importante lembrarmos que a encarnação dos aspectos inefáveis e sublimes da divindade correspondem ao processo de individuação, enquanto que a assimilação dos demais níveis primordiais, embora tragam alguma diferenciação, aprisionam a alma nos níveis primevos e elementares da espiritualidade. Nesta perspectiva, o homem designado realiza conscientemente os arquétipos em sua alma. Através de sucessivas assimilações dos atributos de Deus, consegue saltos conscenciais altamente qualitativos.

Neste sentido, é possível que o Deus de cada época represente um tipo particular de consciência, a marca conscencial do processo evolutivo de um povo ou de uma raça. Parece existir sempre alguém, um ser diferenciado que se torna o portador da luz, que inicialmente capta a essência do atributo divino possível ou necessário para um dado momento e depois o revela ao povo escolhido que o referenda, o amplifica, o transforma e o assimila até o seu mais alto grau para, a partir daí, anelar um “novo” Deus, um novo atributo de Deus.

Não compreendemos de que forma as experiências humanas, e quem sabe as de outros seres em distintas partes do Universo, contribuem para a transformação de Deus. Contudo, uma coisa é real, se as experiências vividas no mundo diferenciado não fosse de alguma forma relevante, o Absoluto (Deus) continuaria Autocontido e jamais se manifestaria na diferenciação.

Diante do exposto, podemos dizer que a psique individual ainda não está suficientemente individuada para assimilar equilibradamente a encarnação de Deus. Assim, devido a sua unilateralidade e estreiteza, é capaz de captar apenas fragmentos ou atributos do Absoluto mas que, de qualquer formar, por si só são um mysterium tremendum e, por esta razão, confundidos e tomados por Deus. É claro que a apreensão destes “atributos” inicialmente é obtida por seres que estão acima da média da coletividade e, devido ao carisma que este estado produz, codificam ensinamentos que postulam “verdades” acerca do fragmento apreendido. Um dos grandes equívocos, que encerra um perigo mortal, é tomar a parte pelo todo e dogmatizar que este “Deus-Atributo” é o único caminho. Recordemos que a parte guarda a natureza e a semelhança do Todo, entretanto, especialmente no mundo manifestado, a parte sempre será uma fração da verdade.

Este novo paradigma, a “necessidade” que Deus teria do homem para conscientizar-se de seus atributos e, assim, poder valer-se deles para sua própria transformação e humanização da alma é discutida por EDINGER.

EDINGER (1987, p.22) assinala: “Com base em nosso conhecimento emergente do inconsciente, ampliou-se a imagem tradicional de Deus. Deus tem sido tradicionalmente retratado como Todo-Poderoso e onisciente. A Divina Providência era vista com guiando todas as coisas, segundo inescrutáveis mas benevolentes desígnios divinos. A medida da consciência divina não recebeu muita atenção. O novo mito amplia a imagem de Deus, ao introduzir explicitamente a característica adicional da inconsciência de Deus. Sua onipotência, onisciência e desígnios divinos nem sempre são dEle conhecidos . Para conhecer-Se, Ele precisa da capacidade do homem de conhecê-lo”.

Nestes termos, “o processo cosmogônico original de separar o sujeito do objeto precisa ser repetido a cada novo incremento da consciência. Cada vez que o ego recai num conteúdo inconsciente, só pode conscientizar-se dele através de um ato de separação que lhe permita ver o conteúdo psíquico emergente e, deste modo, desidentificar-se dele. Um símbolo deste processo de separar o sujeito do objeto, o conhecedor do conhecido, é o espelho. O espelho representa a capacidade da psique de perceber objetivamente, de distanciar-se do jugo mortífero do cru existir primordial”. (EDINGER, p.35). Dito de outra forma, isto significa que cada vez que a consciência individual entra em contato com o inconsciente, em seus diferentes níveis, é tomada pela magnitude numinosa de seus conteúdos, identificando-se com eles. Para que continue existindo enquanto consciência individual, ao mesmo tempo em que aumenta em consistência e vigor ao contato com o inconsciente, terá que necessariamente resistir ao fascínio e desidentificar-se. Não fosse isto, Deus não teria uma testemunha, um ser onde pudesse espelhar a sua luz e a sua sombra e assim transformar-se.

É importante salientar que a transformação profunda de Deus só é possível mediante a Sua encarnação em um Homem cuja natureza individual seja íntegra. Em um Homem que tenha apaziguado sua alma, sua mente, seu espírito e seu coração. Em um homem designado que tenha assimilado de Deus, antes de sua Encarnação, o conciliar dos opostos. Em um homem que tenha se antecipado no tempo e no espaço da raça a que pertence e que, qual Prometeu, tenha “roubado” o fogo que alimenta e eterniza a alma. Pouquíssimos foram os homens com qualidades tão extremadas, contudo, foi graças a estes Homens raros que o nosso Deus pôde se transformar e se abrandar com o tempo. Homens de consciência mediana ou indiferenciados jamais conseguiriam assimilar os níveis mais inefáveis de Deus. Na verdade eles não experenciam os atributos Divinos; têm apenas informações sobre estes aspectos pelo dogma e pela fé.

Contudo, como discutido anteriormente, para que haja transformação tanto em Deus como no homem, a experiência com o numinoso deve ser direta , deve ser experenciada até a consumação máxima do atributo encarnado pela alma humana num dado momento. Neste sentido, uma das experiências mais dramáticas que transformou a natureza de Deus foi o sacrifício de Cristo. Sua Natureza sombria, amoral, pode ser absorvida e transformada por uma psique humana altamente diferenciada e amorosa. Segundo EDINGER (p.91), “de acordo com o simbolismo do mito cristão, o sacrifício de Cristo modificou a natureza de Jeová. Ao oferecer-se como objeto sobre o qual a ira divina pode dar vazão a si mesma, Cristo proclama uma Deus benevolente de amor e traz ao homem a redenção do Deus irado. Como um soldado heróico que se atira sobre uma granada prestes a explodir a assim salva seus companheiros, ao preço da própria vida, Cristo se deixa explodir pela ira de Deus para redimir seus semelhantes. Este ato de sacrifício não só redime o homem, como também transforma Jeová. Com seu ódio explosivo desfeito pela aceitação voluntária dele pela vítima inocente, Jeová se transforma num Deus de amor, através do exemplo de um homem amoroso”.

Assim, todos aqueles que são “escolhidos” a participar do drama da transformação divina são assolados por profundos abalos emocionais e espirituais. Se estes seres não tivessem designação naufragariam, isto é, se inflacionariam a tal ponto que a psique não individuada tornaria o ego cativo de um acúmulo de energia transcendente que o colocaria numa situação de supervalorização doentia (os muitos “messias”) ou, então, o remeteria a uma sub-valorização, levando-o à identificação com a crucificação eterna onde não há ressurreição, somente o profundo abismo de horror.

Decididamente, para transformar o seu lado primevo e conhecer a sua própria luz, Deus necessita do homem. EDINGER (1987, p.95) cita uma notável passagem de Ezequiel (Cap. 22, vers.30-31) onde esta realidade é exposta. “Jeová vinha se queixando dos pecados e Israel e ameaçando destruir a nação para puni-la. Diz então: Tenho procurado alguém entre eles que erija um muro e vede a brecha diante de mim, para defender a nação e impedir-me de destrui-la, mas a ninguém encontrei. Por isto descarreguei minha raiva sobre eles e os destruí no fogo de minha fúria”. Discorrendo sobre esta passagem bíblica EDINGER (p.97) salienta que “Jeová busca ativamente um homem que resista a seu ataque e defenda a brecha nas fronteiras defensivas do ego. Jeová pede para que se oponha resistência ao seu lado enfurecido e destrutivo, para que seu aspecto primitivo possa transformar-se. (...) Em linguagem psicológica, isto significa que a imaginação ativa de um ego que se relacione com o Eu contribuirá para transformar os afetos primitivos da psique primordial”.

Considerando o que foi discutido até o presente momento, fica evidente que se o homem adentrar no grande inconsciente sem haver elaborado a sua sombra poderá encarnar e espelhar tão somente o lado primevo de Deus e, portanto, conhecerá apenas o seu furor e a sua ira. Convém lembrarmos que é o nível de consciência daquele que encarna os atributos de Deus que determinará a natureza da experiência transpessoal. Almas primitivas e indiferenciadas serão oprimidas e comprimidas pela ira de Deus. Alma narcísicas e individualistas serão possuídas pelos deuses ciumentos que requerem constante reverência e adoração. Almas diferenciadas e individuadas encarnarão os atributos inefáveis de Deus. É por esta razão que reiteradamente enfatizamos que antes de adentrarmos no transpessoal precisamos processar os elementos obscuros da dimensão pessoal da psique.

Esta questão é tão essencial que JUNG (1981a, p.65) nos faz uma advertência. Diz ele: “... A pessoa precisa aprender distinguir o eu do não-eu , isto é, da psique coletiva. Assim, adquire material com que vai ter que se haver daí em diante e por muito tempo ainda. A energia antes aplicada de forma inaproveitável, patológica, encontra seu campo apropriado. Para diferenciar o eu do não-eu é indispensável que o homem – na função de eu – se conserve em terra firme , isto é, cumpra seu dever em relação à vida e, em todos os sentidos, manifeste sua vitalidade como membro ativo da sociedade humana . Tudo quanto deixar de fazer neste sentido cairá no inconsciente e reforçará a posição do mesmo. E ainda por cima, ele se arrisca a ser engolido pelo inconsciente. Esta infração, porém, é severamente punida. O velho Synesius insinua que a alma espiritualizada se torna deus e demônio e sofre neste estado a punição divina: o estado de estraçalhamento de Zagreu, o estado pelo qual Nietzche passou no início de sua doença mental. A enantiodromia é estar dilacerado nos pares contrários. Estes são próprios do deus e, portanto, do homem divinizado, que deve sua semelhança a Deus à vitória sobre seus deuses. Assim que começamos a falar do inconsciente coletivo, nós nos colocamos numa esfera, numa etapa do problema que não pode ser levada em conta no início da análise prática de jovens ou pessoas que ficaram por demasiado tempo no estágio infantil. Quando as imagens de pai e de mãe ainda têm que ser superadas e quando, ainda, tem que ser conquistada uma parcela de experiência da vida exterior, que o homem comum possui naturalmente, é melhor nem falar de inconsciente coletivo, nem do problema dos contrários. Mas assim que as coisas transmitidas pelo pais e as ilusões juvenis estiverem superadas ou, pelo menos, a ponto de serem superadas , está na hora de falar do problema dos contrários e do inconsciente coletivo. Neste ponto já nos encontramos fora do alcance das reduções freudianas e adlerianas. O que preocupa não é mais a questão de como desembaraçar-se de todos aqueles empecilhos ao exercício de uma profissão, ao casamento ou a fazer qualquer coisa que signifique expansão de vida. Estamos diante do problema de encontrar o sentido que possibilite o prosseguimento da vida”.

A advertência feita por Jung de que “ para diferenciar o eu do não eu é indispensável que o homem – na função de eu – se conserve em terra firme ” é um dos aspectos mais negligenciados, especialmente pelas vertentes hinduístas que chegaram ao Ocidente, e um dos aspectos menos compreendidos. O “ego” é entendido como o inimigo. Como “aquele” que necessariamente impede a manifestação do Divino na alma humana. Esta assertiva é apenas metade da verdade e se aplica de forma mais dramática às mentalidades não-diferenciadas. É preciso distinguir um ego embrionário, ainda imerso na numinosidade do Pleroma, de um ego emancipado e transformado pela encarnação de Deus. O primeiro é assolado e possuído pelas diversas sub-personalidades de sua vida biográfica, pelos deuses e demônios, portanto, é lábil e poderia ser denominado “multidão”. Um ego assim estruturado jamais poderia ser o vaso alquímico para a encarnação da divindade. O segundo, o ego alquimicamente transformado, distingue as diferentes realidades do mundo elementar numinoso e dele se desidentifica, portanto, reconhece a identidade de Deus à despeito dos deuses que lhe acossam.

O processo de individuação revela justamente o mistério do ego, ou complexo do eu, alquimicamente transformado. “É como se Deus só pudesse passar por uma transformação ao encarnar-se no homem. Ele precisa de um espelho dele mesmo, sob forma mortal, para suscitar a consciência necessária à mudança. E que mortal poderia servir a este elevadíssimo objetivo senão alguém que perceba a si mesmo como um FILHO DE DEUS , isto é, um agente da divindade ? Em outras palavras, a força e o propósito de opor-se ao Eu primitivo são conferidos ao ego pelo conhecimento de sua filiação ao Eu que proporciona um sentimento de parceria no processo mútuo de transformação”. (EDINGER, 1987, p.92). Nestes termos, o grande fardo que o ego alquímico carrega é “ele mesmo, ou melhor, o eu. Sua completude, que é Deus e animal – não carrega apenas o homem empírico, mas a totalidade de seu ser, que está arraigada em sua natureza animal e se estende para além do meramente humano em direção ao divino”.

Este fardo resulta ser tão terrível em virtude de uma instância individual, paradoxalmente ínfima, ter que gestar em si as condições necessárias para suportar a numinosidade do Todo. Neste sentido, no ego transformado, “o fator transpessoal e arquetípico assume um caráter terreno e é sepultado na carne, ou seja, manifesta-se num ego individual”. (p.105). Por esta razão, “a era messiânica” (a era de Cristo, de Jesus O Cristo , Aquele que enquanto Homem encarnou na sua psique individual o princípio Crístico que o elevou à categoria de FILHO DE DEUS ), “significa, psicologicamente, o Advento do Eu, a conquista da individuação. Como afirma a lenda, a psique primordial se transforma em alimento para os fiéis (cuja simbologia máxima é a Eucaristia, ou seja, a transubstanciação do corpo de Cristo). Em outras palavras, a psique primordial é transformada e humanizada ao ser assimilada pelo ego, sob a orientação do Eu (Self) . (p.106). Nestes termos, “a individuação (...) significa, em termos práticos, que ele (o homem) se torna adulto, responsável por sua existência, sabedor que não apenas depende de Deus, mas de que Deus também depende do homem”. (p.106). Nestes termos, não é o ego que necessariamente deve “morrer”. O que de fato precisa ser transformando é tudo aquilo que é não-humano, que na psique individual pertence ao reino dos deuses, demônios e sub-personalidades, ou seja, o que deve “morrer”, ser transformado é a herança da sombra divina na alma humana. Nesta perspectiva, “o Cristo crucificado é o símbolo do ego “devoto”, que tal como Cristo, expõe-se voluntariamente à psique primordial para depois transformá-la. Tal ego está passando pela individuação e é um exemplo da encarnação contínua”. (p.108).

É possível que toda esta apologia à destruição e não à transformação do ego deve-se a um fator fundamental. Ao distanciar-se do inconsciente criativo e adentrar numa unilateralidade profunda da consciência intelectiva, o homem expulsou Deus do centro de sua psique e o ego tornou-se uma terra árida que não pôde mais ser fecundada pelo Espírito Santo, o Espírito Divino transpessoal e, desta forma, tornou-se uma terra de ninguém assolada e habitada tão somente pelos aspectos inferiores dos deuses e demônios.

HOELLER (1990, p.235) pontua que Jung vislumbrava esta ausência de Deus na interioridade da alma. “Em seus estudos sobre os desenhos geométricos da mandala que se manifestam das profundezas do inconsciente, chegou à conclusão de que nestas mandalas pode-se encontrar a expressão do Anthropos ou “homem completo”. Em Psicologia e Alquimia ele reiterou este pensamento e afirmou que os símbolos quaternários da mandala indicavam “deus dentro” da psique. Ele observou também, não sem consternação, que as mandalas desenhadas por pessoas contemporâneas quase nunca contêm uma imagem divina no centro, como teria sido o caso em períodos anteriores. Jung escreveu: “Não há divindade na mandala, assim como não há qualquer submissão ou reconciliação com uma divindade. O lugar da divindade parece ter sido tomado pela totalidade do homem”. Adiante, ele continua, com veia poética: “ Os deuses viveram inicialmente em poder e beleza super-humanos no topo de montanhas cobertas de neve ou nas sombras de cavernas, bosques e mares. Posteriormente reuniram-se num deus único e então deus tornou-se homem. Mas em nossos dias até o Deus-homem parece ter descido do trono e estar dissolvendo-se no homem comum ”.

Além desta ausência crucial de Deus na psique humana, retratada nas mandalas descritas por Jung, há outro aspecto essencial a ser considerado. O leitor deve estar lembrado que no Capítulo II discutimos que a imagem do “redondo” é o simbolismo que a psique usa para designar, para retratar o aspecto primordial da divindade. Neste sentido, algumas mandalas produzidas quer sejam em sonhos, experiências arquetípicas ou mesmo em práticas meditativas ou de imaginação ativa, não são necessariamente um indicativo de individuação e encontro com o Self. Na verdade, assim como a mandala pode estar indicando a ausência de Deus na psique, pode, por outro lado, estar evidenciando a presença de um Deus ainda não transformado e indiferenciado.

Assim posto, podemos dizer que a mandala pode evidenciar diferentes processos na psique. Pode assinalar a ausência Deus; a presença de um Deus primevo e indiferenciado e, mais raramente, a presença de um Deus transformado. O mesmo símbolo O representa em distintos níveis. Aquele que tem designação sabe distinguir estes sinais.

NEUMANN (1995, p.29) salienta: “A divindade Primal, que é suficiente em si mesma, assim como o eu que ultrapassa os opostos , reapareceram na imagem do redondo, a mandala”. É neste contexto, de um eu que ultrapassa ou que está prestes a ultrapassar os opostos, que a mandala surge espontaneamente em sonhos e trabalhos psicológicos assinalando um novo ciclo conscencial, evidenciando um incremento de consciência mediante a encarnação dos atributos de Deus na esfera individual, renovando a aliança de compromisso mútuo onde Deus e homem compõem parceria e somam esforços para a construção de um novo Pleroma. Assim, submeter-se à psique primordial voluntariamente com um ego alquímico, para depois transformá-la em experiência humana/divina é efetivamente o caminho das sombras que leva à luz da encarnação do Deus inefável na psique humana.