O mundo está pronto. Entretanto, falta ainda um ser capaz de odiar e amar. Julgar e punir. Perdoar e esquecer. Lembrar e criar. Um ser que, com sua poderosa alma, seja humilde o bastante para temer os deuses e render-lhes homenagens e cultos.
Falta o homem.
Para forjá-lo, Prometeu arranca o barro do chão e mistura-o com suas próprias lágrimas. Incessantemente trabalha, com paixão e arte, aquela massa informe, até que ela obtém feições semelhantes às de um deus.
Embevecido com a beleza de sua obra, Prometeu decide esculpir uma multidão de estátuas. E, por noites e dias inteiros, debruça-se sobre o barro e dá-lhe formas sob modelos divinos.
Quando termina, contempla suas criaturas. São idênticas, assim enfileiradas e mudas, e parecem-lhe vazias. Falta-lhes vida.
Então, o grande artista insufla nas estátuas caracteres de animais: a coragem do leão, a fidelidade do cavalo, a força do touro, a esperteza da raposa, a avidez do lobo.
E as criaturas de barro começam a movimentar-se. Lenta, porém decididamente.
Mas ainda falta-lhes a faísca do espírito divino, que as tornará capazes de ousar.
Atena (Minerva), a filha inteligente de Zeus (Júpiter), a deusa da sabedoria, decide ajudar Prometeu. Pega uma taça cheia de néctar divino. Desce ao mundo. E entrega-a a todos aqueles seres, já dotados de vida, para que sorvam algumas gotas.
De repente, sobre a cabeça de cada um, surge uma luz nova e bela.
Agora são os homens. Têm uma alma. Mas ainda não sabem o que fazer com ela. Prometeu terá ainda muito trabalho pela frente.
Os homens agora estão dotados de cinco sentidos e uma alma. Têm a capacidade de observar e ouvir, tocar e querer, cheirar e gostar.
A terra mostra-lhes fenômenos maravilhosos de fecundação e fertilidade. O mar é poderoso e rico. O céu, cheio de luzes e astros. Os vales são verdes, os animais rondam as florestas, com suas diferentes vidas e estranhos costumes.
Mas os homens vagueiam como sonâmbulos pelo planeta, tateando-o, sem saber retirar dele toda a riqueza que poderiam.
Não conhecem a arte de quebrar pedras e esculpi-las. Não sabem fazer tijolos de barro, nem cortar madeira para construir casas. Vivem em grutas sem sol. Não distinguem a primavera do outono, o verão do inverno.
Prometeu decide aperfeiçoar a consciência que dera à bela e trágica espécie que criara.
Pacientemente, começa seu trabalho de mestre. À beira do mar, explica aos homens a diferença entre o nascer e o pôr do sol.
Felizes e deslumbradas, as criaturas mal podem crer que a natureza se mova dentro de uma ordem tão harmoniosa.
Prometeu envereda pelas densas florestas. Ali, ensina suas criaturas a domesticar os animais selvagens em seu próprio benefício.
Depois, instrui-as na cura de muitas doenças fatais: como diminuir a febre, como aplacar com óleo as dores de feridas, como encontrar raízes medicinais entre a vegetação e como transforma-las em remédios.
Enfim, chega a hora dos homens aprenderem a penetrar no escuro labirinto de suas próprias cabeças. Prometeu mostra-lhes como interpretar sonhos.
E, para que eles possam também compreender os seus destinos, aceitando os sofrimentos e conquistando as vitórias, o grande sábio treina-os na arte de decifrar os oráculos.
Por fim abre a terra. É o momento de espanto e intensa alegria. Os homens descobrem que a terra é rica. Contém ferro, ouro, prata e pedras preciosas. O mestre ensina-lhes o jeito seguro de extrair os metais.
Agora os homens podem reinar. Conhecem a si mesmos. Não os assustam o trovão nem os pesadelos noturnos, povoados de fantasmas.
Têm cinco sentidos. Uma consciência. Uma vontade. Uma força poderosa.
Prometeu dera aos mortais, suas criaturas, uma forma física; incutira-lhes uma consciência, uma alma. Transmitira-lhes o conhecimento do mundo, a vontade de trabalhar e dominar a natureza.
Havia, entretanto, uma única coisa que eles ainda não conheciam. Faltava-lhes um elemento fundamental para poderem construir as civilizações e alcançar o progresso: o fogo.
Sabendo disso, o grande Júpiter esconde-o. Os homens são compelidos a comer o alimento cru e frio. Não podem forjar os inúmeros metais que, conduzidos pela mão de Prometeu, haviam descoberto no seio da terra.
Também não podiam fabricar os vasos onde guardariam a água. Nem aquecer-se quando a neve recobrisse a face do planeta.
Temendo pela raça que criara com tanta paixão, Prometeu decide entregar o fogo aos homens.
Quebra um comprido ramo seco de uma árvore, voa rapidamente até o céu e acende o galho no calor do carro do Sol.
Com a chama acesa, alegria dos mortais e energia necessária a toda vida terrena, Prometeu volta à terra.
Agora, os homens conhecem o segredo do precioso elemento.
Pouco difere dos deuses.
(Extraído da Coleção: Mitologia, Vol. II, Abril Cultural, 1973)
INDIVIDUAÇÃO: A CONSCIÊNCIA HUMANA EM PROCESSO DE REFINAMENTO E EXPANSÃO
Prometeu: Uma Consciência Para Os Homens
Conta a lenda grega que a primeira geração mítica (as divindades primordiais) criou a raça dos Titãs. Estes, na pessoa de Cronos (Saturno), o deus-tempo, destronaram seus antecessores, castrando Urano (Céu), princípio masculino de todas as coisas.
Depois, Zeus (Júpiter), filho de Cronos, sucede ao pai, e elimina toda a antiga estirpe, numa guerra sangrenta que coloca os olímpicos no poder.
Pela lógica da seqüência temporal da História, a raça que sucederia aos olímpicos, em termos de tempo, deveria igualmente combatê-los e destroná-los. Mas esta raça são os homens. E a luta até hoje se trava, sem que, pelo menos evidentemente, a humanidade vença os deuses.
Segundo o mito grego, os deuses temeram aos homens.
Júpiter teme que os homens tentem destruir os deuses, esquecendo-os ou sobrepujando-os. Eles estão cada vez mais ativos em suas colheitas. Podem construir abrigos. Sabem furtar-se ao frio. Nem precisam mais invocar a proteção dos deuses para que o verão volte logo.
Sabem fundir o ouro e a prata. Podem fazer preciosos enfeites para as casas e os mais belos ornamentos para os corpos.
Podem cunhar moedas, produzir riquezas, construir cidades, pontes, embarcações.
Podem mesmo expressar, através da arte, raiva, medo, paixão, alegria e todas as grandes vitórias.
Os homens são poderosos. Não precisam de mais nada, além do próprio esforço. Têm fé nas próprias mãos. Na própria luta.
Prometeu observa com orgulho a forte espécie que engendrara: suas criaturas têm rebanhos, terra, coragem, alegria.
São lúcidas. Constituem terrível ameaça aos olímpicos. Talvez imponham ao mundo uma nova ordem, a ordem humana, sobrepujando os filhos e irmãos de Júpiter, como este destronara seu próprio pai, Saturno.
Os deuses estão em pânico. Discutem, no céu, como tornar os homens novamente submissos e humildes. Porque a raça humana não pode ser vitoriosa.
Júpiter inventa a forma mais rápida de destruir o paraíso dos homens: a mulher.
Chama Vulcano, o habilidoso deus artesão, e pede-lhe que confeccione uma imagem feminina em bronze.
Ela deveria assemelhar-se ao homem, mas em alguma coisa deveria dele diferir, de tal forma que o encantasse e o comovesse, atrasando-lhe o trabalho e transtornando-lhe a alma.
E cada deus oferece alguma coisa àquela criatura, que já nasce para colocar em desconcerto a vida dos mortais.
Minerva entrega à mulher recém-nascida um lindo vestido bordado, que lhe cobre as harmoniosas formas.
Depois, coloca-lhe um véu sobre o rosto sereno e enfeita-lhe a delicada cabeça com uma guirlanda de flores coloridas.
Quando a virgem está inteiramente vestida, Vênus oferece-lhe a beleza infinita e os encantamentos que seriam fatais aos indefesos homens.
Mercúrio presenteia-a com a língua. Apolo confere-lhe suavíssima voz.
Enfim, a bela Pandora, “dotada por todos”, está pronta para cumprir sua missão.
Os astros iluminam a formosa figura que se prepara para descer à terra.
Mas, antes de enviá-la em sua caminhada até os homens, Júpiter entrega-lhe uma caixa coberta com uma tampa. Nela estão contidas as misérias destinadas a assolar os mortais: reumatismo, gota, dores para enfraquecer o corpo humano. E inveja, despeito, vingança para desesperar-lhes a alma, antes pura e solidária.
Quando Pandora chega ao mundo, encontra Epimeteu. Tão logo a vê, ele se encanta, e comovido recebe de suas mãos a perigosa caixa que ela lhe oferta.
É um presente de Júpiter, declara Pandora. E nem por um instante Epimeteu suspeita de que todo sofrimento humano dali emergiria. Ainda desorientado pelo deslumbramento que lhe causa a bela figura, esquece o juramento feito a seu irmão, Prometeu, de jamais aceitar qualquer presente de Júpiter.
Agradecido, abre a tampa da caixa fatal. Imediatamente, saltam de dentro dela todos os infortúnios do mundo.
Entretanto, no fundo do recipiente maldito, permanece um tesouro, que poderia estragar toda a vingança dos deuses e destruir-lhes definitivamente qualquer praga: a esperança.
Júpiter não quer que os homens esperem mais nada. A um só gesto do deus, Pandora fecha a caixa, deixando a esperança calcada no fundo, escondida para sempre.
E o homem perde seu paraíso.
